Carta aberta de um cineasta independente sobre a pirataria de seus filmes.

blackjack

Ti West é um dos cineastas norte-americanos da nova geração de diretores/produtores independentes de filmes de terror que apareceu após a chamada splat pack. Particularmente gosto apenas de um filme dele, mas o que vem ao caso aqui não são os seus filmes em si, mas o que ele escreve e como raciocina sobre a produção, distribuição e a retribuição para os investidores como consequência para possibilitar a realização de novas obras. Essa carta aberta é de dezembro de 2012 e continua tão relevante agora quanto quando foi para o ar digital alguns anos atrás.

Não adianta disfarçar fantasiando de conveniências vazias com nomes de democratização de informação, compartilhamento, mix/mashup, e outras bobagens que inflaram com o circo da web 2.0, porque se dissolvem nos primeiros argumentos sobre os fatos reais (sim, existe gente real lá fora produzindo essas obras) dos processo de criação e produção das obras. Simples assim: entre numa feira, num brechó, ou numa barraquinha hippie vendendo pulseira de miçanga e marica de durepox, pegue o que quiser e apenas saia. Se reclamarem, fale em democratização, compartilhamento e mix/mashup.

Alguém gastou tempo/dinheiro pra produzir uma obra para ser comercializada para pagar os custos de sua produção, seus investidores, o aluguel da casa do criador da obra, os salários da equipe que realizou a obra e você pegou e foi embora sem reembolsar o valor de tempo/energia/dedicação, investimento pessoal, mental e emocional? No, sorry, pirataria é roubo. E o modo das conveniências de discutir isso nos dois extremos, da criminalização via indústria, que cria a demanda pra esfolar o consumidor com valores surreais, e do discurso rasteiro e festivo da “democratização”, se anulam como um perfeito choque de idiotia. Um lado vestido com a capa rota de leis e convenções de business centenárias que não se encaixam mais aos tempos e comportamentos contemporâneos, batendo de frente com a carnavalização hype do mau caratismo travestido de rasas ideologias libertárias dançando techno no carro alegórico na web-parade do futuro que nunca vai chegar.

Enfim, a carta:

“LADRÕES DE SUPERMERCADOS DO MUNDO DA MÍDIA UNIVOS

Cara Internet,

Nesta sexta-feira, 30 de dezembro, o meu filme “The Innkeepers” será lançado em VOD faltando um mês para seu lançamento nos cinemas que será 03 de fevereiro. Isso significa que ele provavelmente vai chegar aos sites de torrent dentro de 24 horas onde poderão acontecer milhares de downloads nos próximos dias.

POR QUE EU ACHO QUE VOCÊ DEVE PAGAR PARA ASSISTIR CINEMA INDEPENDENTE? Não é pelo dinheiro. Pessoalmente, eu não me importo com o dinheiro. Por mais que seja triste eu ter que admitir que é muito improvável que receberei um único centavo no lançamento do meu filme. Meu ultimo longa “The House of the Devil” foi lançado de maneira semelhante e muito bem sucedida. O ano era 2009 e desde então eu recebi ZERO dólares oriundos de seu sucesso. Eu não sou o detentor dos direitos dos meus filmes e até os lucros que eles geram chegarem aqui nesse velho (que é o roteirista, diretor, editor e produtor das obras) a maior parte já se escoou em despesas vagas, taxas aleatórias e encargos ultrajantes. Esta é a natureza deste negócio e estou aqui para aceitá-la. A partir do momento que não sou dono dos meus filmes, tive que abrir mão a fim deles serem financiados por alguém com bolsos maiores e possibilidade de arcar com seus orçamentos – é assim que a banda toca. É um tipo de negociação e estou ok com isso. O que realmente me importa é o seu apoio como espectador. Com isso, me importo muito.

Cada vez que você compra um produto, você está fazendo uma declaração. Você está criando uma evidência palpável de que algo tem o seu valor. E se o valor se torna alto, então maior será a demanda. Portanto, se você escolhe direcionar seu esforço em apoiar uma coisa menos conhecida, mais interessante, artística, você está ajudando a tornar essa coisa que é menos conhecida em algo popular. Tenho certeza de que todos concordamos que a cada ano existem filmes incríveis que nunca recebem a atenção que merecem – E isso não é culpa dos filmes. Isso é uma culpa coletiva nossa por não sermos pró-ativos o suficiente e sairmos da nossa zona de conforto para apoiá-los.

Então, sim, eu quero que você saia da sua zona de conforto e apoie a minha obra, pagando por ela. Não porque sou ganancioso, mas porque se o filme fatura, isso se torna uma evidência real para quem investe (seja lá quem for seu investidor) de que há um público pagante para filmes como o meu lá fora. Um público para o cinema independente. Para algo diferente. Não somente para remakes ou sequências ou versões de quadrinhos/ /desenhos animados/jogos de tabuleiro. Esses são tempos de muito poder para o consumidor. Com a criação dessa pequena plataforma para lançamento (via VOD) tem sido incrivelmente fácil o espectador apoiar o filme. Dá pra fazer isso sem sair da cama.

Eu, pessoalmente, serei beneficiado, se você pagar pelo meu filme. Assim como meus amigos e colaboradores. Talvez não de uma maneira diretamente financeira, mas através do apoio de consumidores/fãs cujo o interesse coletivo convencerá às pessoas ricas a continuar nos financiando (e espero que cada vez com orçamentos maiores) nesse tipo de cinema que fazemos. A escolha de financiamento dos investidores se dá apenas pelo valor contábil de um filme. Não pelo conteúdo. Tomara que todo mundo tenha hoje essa consciência, mas talvez ainda existam pessoas – que poderão ler esse artigo – que ainda acreditam ideologicamente que um filme pode ser simplesmente realizado e captado por causa apenas de suas grandes ideias, que merecem serem filmadas, não importando o seu apelo comercial. Infelizmente, com exceção de pouquíssimos exemplos, isso não existe.

Pense nisso: Se você entra numa loja e há dois produtos similares – um confeccionado à mão por um produtor local que você conhece (ou mesmo uma pequena empresa nacional) e outro feito por uma máquina (vindo de fora do país) – você não pagaria um pouquinho a mais pelo produto da marca que você reconhece pessoalmente? Especialmente se você tem consciência que fazendo isso você está beneficiando esse pequeno produtor? Não é melhor apoiar ele do que o impessoal, sem inspiração, feito na máquina? Você não gostaria de apoiá-lo?

Onde nós escolhemos gastar o nosso dinheiro deve refletir o que importa para nós e o que queremos apoiar. Se cinema independente é importante para você, então faça-me um favor e compre o meu filme, não faça um download ilegal. Não é um comprometimento financeiro que você não possa arcar e eu não sou uma corporação. Não sou rico, nem vim de uma família da indústria… Sou apenas um cara normal, que fez um filme, e quer continuar a fazê-los. Eu não posso fazer isso sem a sua ajuda, e por ela serei imensamente grato.

Por último, se você vive em uma cidade onde o filme está sendo lançado nos cinemas, por favor, vá vê-lo na sala. Demorou mais de um ano para meticulosamente criar o filme com a intenção de que seja visto projetado em 35 milímetros em uma tela grande com um alto som surround. Isso tudo foi feito para seu benefício. Ele foi criado para ser visto em uma sala de cinema – É, no final das contas… Um filme.

Sinceramente,
Ti”

————————————

O link original em inglês: SHOPLIFTERS OF THE MEDIA-WORLD UNITE